segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Objeto de Desejo

Publicado originalmente por Priscilla Brossi Gutierre em 06/10/2006. 

Pequenas editoras investem numa literatura artesanal, em livros feitos à mão, com bordados, colagens e pinturas. 


Em tempos de grandes facilidades gráficas, costurar, montar ou desenhar à mão um livro pode parecer absurdo, certo? Errado. Alguns projetos vêm ganhando notoriedade justamente porque investem no trabalho artesanal dos livros. São pequenas editoras que apostam em novos formatos para viabilizar o trabalho de jovens escritores. Nada de grandes tiragens ou complexa logística de distribuição. A idéia aqui é simples: buscar qualidade e espaço diferenciado.

Fina Flor, que se auto-intitula uma "mini micra editora", é um exemplo desse movimento. Com 11 títulos já lançados, ousa ao propor o conceito de obras com intervenções artísticas. São livros manipulados à mão, com grampos, carimbos, aquarelas, tecidos, papel fotográfico, bordados, entre outros materiais. Todos são numerados e assinados pelos autores, com tiragens que não passam dos 150 exemplares. Custam em média R$ 35. Um dos últimos lançamentos, o livro Breves fraturas portáteis, por exemplo, teve a mão do autor, Tadeu Sarmento, desenhada à mão, exemplar por exemplar. 

Os lançamentos acontecem em festas ou bares. Os convites rodam rapidamente pelas facilidades da internet, em especial nos blogs dos próprios escritores e amigos. Os exemplares são praticamente todos vendidos no dia do lançamento mesmo, explica a escritora gaúcha Cristiane Lisbôa, responsável pela editora. "Os livros acabam se tornando objeto de desejo", analisa. Os eventuais remanescentes voltam à editora e podem ser encomendados pelo site. 

Criada em 2001, a Fina Flor surgiu casualmente, com um trabalho de faculdade, no Rio Grande do Sul. Cristiane e uma amiga decidiram fazer cópias e dar um acabamento bem artesanal aos textos que cada uma havia escrito. A brincadeira foi crescendo e chegaram a distribuir o material em uma livraria da cidade, em troca de alimentos. Da experiência surgiu a editora e seus dois primeiros títulos. O catálogo inclui nomes como Xico Sá, Pinky e Rita Wainer, Thais Lima, Miranda, Ane Aguirre, Andrea del Fuego, Ademir Corrêa e Lidia Sahagoff. 

Ainda em 2006, Cristiane promete o lançamento de uma caixa especial da editora.


Primor pela técnica artesanal

Em direção semelhante está o selo Demônio Negro, projeto pessoal de Vanderley Mendonça, um dos sócios da Amauta Editoral, editora brasileira especializada em literatura ibero-americana. O selo ainda é novo, mas promete muito investimento no trabalho artesanal. Também aqui a aposta é em novos escritores e material inédito. 

A idéia de fazer livros baratos, artesanais, recorrer às formas rudimentares de produção gráfica, é antiga. "Quero resgatar a arte dos mestres tipógrafos, impressores como Aldo ManuzioCléber Teixeira e Guilherme Mansur", explica Vanderley, que é um estudioso das artes gráficas.

O primeiro livro do selo, Doze, traz 12 contos, de 12 autores – Claudinei Vieira, Bruno Guimarães, Andrea del Fuego, Indigo, Donny Correia, Furio Lonza, Gabriela Kimura, Isolde Bosak, Marcos Cesana, Marcelo Barbão, Rodrigo Gurgel e Yara Camillo. Com exceção da impressão do miolo, digital, o livro foi todo feito à mão: capa dura impressa em tipografia, substituindo tipos móveis de metal por fotopolímero, costurado e com guardas coloridas. A tiragem inicial foi de 60 exemplares, praticamente esgotada no lançamento, que aconteceu no bar Mercearia São Pedro, em São Paulo, por enquanto o ponto de venda exclusivo do título. 

Ainda em 2006 será lançada Oitavas, coletânea de poesias de autores novos ou muito pouco publicados: Sergio González Valenzuela, do Chile, Cristian de Nápoli, da Argentina, Pepe Valdez, hispano-americano, e os brasileiros Ana Rüsche, Elisa Andrade Buzzo, Paulo Ferraz, Victor del Franco e Luiz Roberto Guedes. Oitavas terá tiragem de 100 exemplares e será lançado com a segunda edição de Doze, no próximo dia 10 de outubro, às 19h, na Casa das Rosas (Av. Paulista, 37, Paraíso, SP). 

Mas, como a idéia do Demônio Negro é fazer impressão dos títulos por demanda, as edições não se esgotarão. "Os interessados poderão solicitar ou esperar pelas próximas fornadas", explica Vanderley. Os livros custam R$ 20 e o e-mail de contato com o selo évanderleymeister@gmail.com.

O próximo projeto é uma coletânea de traduções, com poetas catalães, franceses, escoceses e muita coisa histórica da poesia de invenção. Depois o selo começará investir nos livros de autor. Dois estão quase prontos: um de poesia erótica do cineasta Sylvio Back e um de prosa experimental de Furio Lonza. 


Literatura como projeto social

O trabalho artesanal é também o diferencial de Eloisa Cartonera, premiado projeto artístico e social argentino que se propõe a fazer livros com o papelão comprado dos catadores das ruas, ou cartoneros. As capas são pintadas, uma a uma, por jovens que se integram ao projeto. 

Trata-se de uma editora, além de outras coisas, explica um dos responsáveis, o artista plástico Javier Barilaro. "Publicar livros é uma desculpa, é nossa tentativa de ajudar a integrar pessoas excluídas socialmente". Leia mais sobre o projeto na reportagem publicada aqui no Portal Literal.

Eloisa Cartonera já publicou jovens autores e grandes nomes argentinos como Ricardo Piglia e Cesar Aira. Atualmente, trabalha numa longa série de edições bilíngües (português e espanhol). Os primeiros títulos, já lançados, foram de Haroldo de Campos Glauco Mattoso, Jorge Mautner e Camila do Valle. Mas a idéia é ampliar a lista e a expectativa é que o trabalho que está em exposição na 27. Bienal de São Paulo (Eloisa Cartonera está na lista dos 118 artistas convidados) possa ajudar nesse intento.







Fonte: http://portalliteral.terra.com.br