Cozinha - Doce e Amargo (aperitivo)

A cozinha I 

e a água imundou a minha cozinha
eu existo desde que ela existe
eu quero tapar os meus ouvidos
os gatos miam
a sol late
coçar as mãos dá dinheiro já dizia a minha vó
corre e joga no peito
a água anuncia novos tempos
a água limpa
a água lava os nossos erros

na minha cabeça tem muita coisa boa pra te dar
é só aguardar
ouvir o silêncio: kings of convenience
e textuo aqui e agora
essas palavras que saem como música
parece um sapateado nunca visto

vamos deixar a água nos limpar de uma vez por todos
o mundo des-água
imaginamos rios e cachoeiras
aquela mensagem...
deixa pra lá
vamos amar como nunca
prepare o suco de abacaxi com hortelã
pizza de grãos
fome pra dentro d´alma
amanhã a vida continua nua
que roupa iremos colocar?
Dormir e acordar....

A cozinha II

Não sei do que falar
Estou cansado da falta de humanidade
Taxistas pedem propina para nos transportar
Viver em sociedade é assim?
Por que os adultos são tão venais.
O amor não existe mais nos corações das pessoas.
Mas você é muito tolo. Na vida, meu rapaz ninguém quer perder dinheiro.
A riqueza me incomoda e me seduz.
O belo só existe por que o feio existe.
Descontrolo-me para andar na linha tênue da existência.
Meu bem, vamos dormir depois do sexo.
Rogo pra São Jorge, rogo pra Narasimha, o deus-leão.
Nos proteja durante o sono.
Coloca as nossas sombras pra dormir.
Boa noite !

A cozinha III

Estou em uma cozinha diferente
De mesas distantes
Bancos de igreja
É uma cozinha escolar
Onde nos intervalos bebíamos leite com biscoito
Do tempo em tempo
O bucólico se revela em ódio
Daqueles que me impediam de ser criança
Debaixo d´árvores sofro ameaças: vou te pegar na hora da saída
Calado, eu ficava calado
O medo: quer saber, vão todos se fuder.
Educador não pode ter problemas. Não pode explodir.
Então  arranco todas as minhas unhas.
Meus dedos ficam todos feridos.
A comida é requentada.
Eles precisam da minha insanidade.
Acordai pequeninos cidadãos brasileiros.
Espero que sejam assim...
Comida de marmita na cozinha escolar é diferente.
A minha não tem carne.

Bom apetite. 

A cozinha IV


(Para Cristiane da Silva)

Em tempo de semeadura
não há cozinha com panelas
a cama é a cozinha
lá se come, come, come...
Antropofagia
Carne com vida

O amor é uma festa de imigrantes italianos
sem luxuária
com intimidade
o uso é o prazer de dar prazer
o gemido masculino
no silêncio do porto
vento...
tradição familiar que resiste
as mudanças climáticas da poluição humana
que não alma nada
só se irrita com o desembarque dos sobreviventes da peste negra
O amor é uma festa de família que embriaga a realidade lucrativa de ser alguém
neste mundo cruel
Salve o doce palha italo-brasileiro.
Sem exageros
é bom colher suculentas frutas vermelhas.

A cozinha V

O microondas
esquenta a comida da vida moderna
a TV com chuvisco, é
onde o tempo controla a vida
um minuto...

O microondas
não fala
não se relaciona
não tempera com amor
não sente prazer.

O microondas
é a mulher-objeto
a boneca inflável da cozinha
fria
não interage
interface da pressa
prisão
sem ritos...cheiro metálico.

O pastor da minha igreja tinha razão:
O microondas é coisa do inimigo.
Comida congelada envenenada.
Cuidado com o rato.
A validade é grande.
A minha sorte é que eu tenho quatro gatos:
Adoram dormir em cima de um microondas.

Já comeram pipoca de microondas?
Na internet podemos comprar por um bom preço.
Facilita vida.
Mas ainda prefiro um fogão de quatro bocas.

A cozinha VI

Sinto uma tristeza que não cabe no olhar.
Talvez num bolo de cenoura,
numa cozinha carnívora de vísceras dilaceradas pela raiva.

A existência não me permite romper a ética.
Vou em frente.
Compro um quilo de carne bem vermelha, muito sangue.
Tábua de madeira que é pra abafar o som.
É...
por favor, dá pra chegar pro lado?

Pás! (Onomatopeia de faca cortando a carne na madeira.)
Aceita uma língua?
Crunch! Crunch! Crunch!
Dizem que os nossos antepassados na ausência de animais, comiam-se.
As mulheres faziam sopa.
Os homens...um churrasquinho de esquina.

Tentei mudar o mundo mas ele não quis.
Preferiu ficar oco.
Sem sal, molho e pimenta.
Sem tempero algum.
Só com o gosto de fel na boca.

Então...vê se cala a tua hipocrática vagina.
Moralista. A placa da esquina dizia:
"Procura-se marido com muito dinheiro no bolso,
saúde para dar e vender."

Na cozinha da raiva,
o bolo de cenoura é a sobremesa dos arrogantes.
O veneno se dissolve em cobertura de chocolate.
Prefiro criar a minha própria sorte.
Contar comigo.

E Deus finalmente habita a minha cozinha que é um templo.
A mesa...farta de humildade.
Por favor, poderia passar a faca
para eu arrancar a sua unha?

Brincadeirinha, agora eu só como vegetais.

A cozinha VII


Olhem!
Tá vendo aqueles sapos?
Sem fome, engoli quase todos.
Feios sapos.
Sem gosto algum,
Sem sal,
questão de sobrevivência?!
Condicionamento social.
Não somos obrigados alimentar-se de sapos.

Meu nome é fulano,
tenho...
nunca mais vou engolir sapos.
decidi abster-me deles.
Engorda, faz mal.
As perninhas costumam ficar penduradas no canto da boca.
Gosmento.

Sabe de uma coisa, farei uma sopa de sapos para dar aos meus inimigos -tipo de bruxaria caseira inventada por mim.
Profetizo: Chuva de sapos cairão sobre a cabeça dos infiéis seres da educação.
Depois farei jejum até que o último sapo engolido saia de mim, saia de mim, saia de mim...
Boca, ânus e nariz.
Sem doce.

Daí eu comerei dignidade e respeito em pratos livres de abusos.
Bon Appétit !