quarta-feira, 11 de junho de 2014

A COZINHA...Futuro livro de Rudolf Rotchild


VINGANÇA É UM PRATO QUE SE COME QUENTE

Sinto uma tristeza que não cabe no olhar.
Talvez num bolo de cenoura,
numa cozinha carnívora de vísceras dilaceradas pela raiva.

A existência não me permite romper a ética.
Vou em frente.
Compro um quilo de carne bem vermelha, muito sangue.
Tábua de madeira que é pra abafar o som.
É...
por favor, dá pra chegar pro lado?

Pás! (Onomatopeia de faca cortando a carne na madeira.)
Aceita uma língua?
Crunch! Crunch! Crunch!
Dizem que os nossos antepassados na ausência de animais, comiam-se.
As mulheres faziam sopa.
Os homens...um churrasquinho de esquina.

Tentei mudar o mundo mas ele não quis.
Preferiu ficar oco.
Sem sal, molho e pimenta.
Sem tempero algum.
Só com o gosto de fel na boca.

Então...vê se cala a tua hipocrática vagina.
Moralista. A placa da esquina dizia:
"Procura-se marido com muito dinheiro no bolso,
saúde para dar e vender."

Na cozinha da raiva,
o bolo de cenoura é a sobremesa dos arrogantes.
O veneno se dissolve em cobertura de chocolate.
Prefiro criar a minha própria sorte.
Contar comigo.

E Deus finalmente habita a minha cozinha que é um templo.
A mesa...farta de humildade.
Por favor, poderia passar a faca
para eu arrancar a sua unha?

Brincadeirinha, agora eu só como vegetais.



MICROMARÉ


O microondas
esquenta a comida da vida moderna
a TV com chuvisco, é
onde o tempo controla a vida
um minuto...

O microondas
não fala
não se relaciona
não tempera com amor
não sente prazer.

O microondas
é a mulher-objeto
a boneca inflável da cozinha
fria
não interage
interface da pressa
prisão
sem ritos...cheiro metálico.

O pastor da minha igreja tinha razão:
O microondas é coisa do inimigo.
Comida congelada envenenada.
Cuidado com o rato.
A validade é grande.
A minha sorte é que eu tenho quatro gatos:
Adoram dormir em cima de um microondas.

Já comeram pipoca de microondas?
Na internet podemos comprar por um bom preço.
Facilita vida.
Mas ainda prefiro um fogão de quatro bocas.